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janeiro 31, 2009

Saudades ...de Venezuela

Tenho saudades dos tempos que lá passei. Do barulho dos insectos nos dias de calor, de comprar um "raspao" à beira da rua, de ver a iguana esgueirar-se entre os ramos das árvores, do "cambur" pendurado à beira da estrada, das fatias fritas de plátano do coco cortado à minha frente. Na casa, cuidada por um amigo do meu pai, abríamos um portão e molhava os pés na água do mar que batia logo ali.

Saudades das chuvadas tão violentas quanto breves.

Tenho saudades de sair de manhã com a minha mãe para apanhar as mangas -das pequeninas- que caiam das árvores em terrenos baldios.

Do colibri pequenino e ágil voando de de flor em flor batendo as asas tão rapidamente quem nem se viam.

Tenho saudades de sair com o meu pai e um velhote português (lá faleceu sem nunca regressar a Portugal) para lhe ir comprar as cervejas Zulia que ele tanto gostava.

Saudades da Domitila, uma colombiana amiga da minha mãe, com quem passei tantos bocados em amena conversa. Não sei se ainda é viva ou não.

Saudades ... e pena por ver este país a degradar-se a cada momento que passa, fruto de um louco manhoso e sem escrupulos que não respeita nem sequer o voto popular. Acho que não conseguirei lá voltar.

janeiro 10, 2009

Coisas Maravilhosas

Na minha sala de estar tinha uma lareira. Investi um pouco mais e coloquei um recuperador com ventilador. O conforto aumentou imenso e o consumo de lenha diminui mais de 60%.

As chamas lambem agora suavemente as achas de madeira de pinheiro (morto pela praga do pinheiro) de uma forma eficiente, implacável mas muito mais lenta. Cada Watt é extraído e os Joule espalham-se pela sala de uma maneira mais uniforme.

Adenda: Aquela chama é o regresso de um bocadinho do Sol que me acompanhou a juntar a erva que cortávamos, os ramos que recolhíamos, as agulhas que reuníamos naquelas curtas tardes de Inverno que eram destinadas a trabalhar o pinhal.

Impressiona a forma como uma árvore, ao longo de vários anos, capturou e armazenou tanta energia num volume tão pequeno.

Tenho desgosto pelos pinheiros, que desde a minha infância conhecia um por um e ainda agora me lembro de muitos (para que lado estavam inclinados, onde estavam, qual a espessura, quais as curvas do tronco, etc) , que têm vindo a morrer e a serem substituídos por eucaliptos.

Gostava e gosto do som do vento a passar na copa dos pinheiros: embala a alma com uma ternura imensa.

dezembro 27, 2008

A Estrela


Não se encontra no firmamento. Não apareceu nas telenovelas, nos grandes filmes nem nunca recebeu um Óscar. Teve, como as grandes estrelas de cinema, vários "casos" mas nunca uma vida em comum com alguém de relevo. Deu à luz vários filhos.
Alguns foram vendidos. Uma das filhas ficou com ela.
A Estrela era a vaca principal da família: puxava a carroça, arrastava a grade e rodava a nora para tirar a água que regava o milho. Eu seguia-a não fosse parar.
Tinha sempre a erva mais tenra e dava um leite doce que a minha avó recolhia directamente na vasilha de alumínio. Eu bebia-o e ficava com o bigode branco da espuma.
Mas a Estrela envelheceu, ficou impaciente e ao mesmo tempo incapaz de trabalhar apesar de ser cada vez mais poupada.
Um dia a família tomou uma decisão muito dolorosa: vendê-la.
O camião, que observei com espanto pois máquinas daquelas eram raras naquela altura, chegou numa sexta-feira. Nenhum de nós teve a coragem de ver carregar a Estrela e eu, com o pião na mão, vi o camião desaparecer na curva do caminho.
O jantar, uma caldeirada de carapau, não foi consumido nessa noite pesada. As lágrimas rolavam cara-abaixo das mulheres e o homem estava num silêncio pouco usual. Eu olhava e compreendia quanto um animal ao partir leva também um pouco da nossa essência.

dezembro 10, 2008

Coisas que um dia a Ciência explicará

A minha Escola Primária era uma construção igual a tantas outras que tenho visto pelo país. O Estado Novo construiu assim centenas no centro das aldeias e vilas, e não nos arredores como agora é regra, mas sempre com o mesmo projecto. Assim foi feito também com as casas florestais.

A escola -ainda de pé, sem rachas e com o soalho original- não tinha aquecimento. O professor dava-nos 10 minutos para colocar as mãos pequeninas nos bolsos já que as sucessivas tentativas de acender a salamandra não davam resultado. A passarada malvada fazia ninhos na chaminé e a sala enchia-se de fumo.

O trabalho era árduo: contas, ditados e leitura. O recreio era uma alegria: ao ar livre, com poças de água e muito futebol. Todos nos levantávamos quando o professor entrava. Havia ordem na sala quando ele estava e desordem quando virava costas (ficava um sentinela no cimo das escadas). Outro momento de felicidade era receber um caderno novo (cheiroso, direitinho, impecável como todas as coisas novas) mas só depois do anterior ser escrutinado para confirmar a sua completa utilização.

O castigo vinha com os erros ortográficos ou de aritmética. A régua batia com força e democraticamente: a cada um aquilo que lhe cabia. Não havia excepções: o filho do professor era o menos poupado.

Alguns pais levavam uma galinha vermelha no Natal (criada com milho e em liberdade) e pediam:

-Sr Professor veja lá o meu rapaz, faça dele um homem.

E o Prof. via mesmo e escrutinava com mais cuidado o rebento dos generosos progenitores. A régua actuava mais vezes para fazer cumprir a promessa.

A fustigadela da dita (madeira exótica maciça) não era muito dolorosa, mas devia ter um qualquer efeito indirecto no cérebro: activava os neurónios e fomentava a formação das sinapses. Todos aprendiam apesar de alguns terem pouca vontade de o fazer.

novembro 15, 2008

A Corália


A Corália era uma cigana que visitava frequentemente a nossa casa. Alta, seca e altiva era sempre bem vinda: vendia cestos e dava notícias sobre a sua família. Os anos foram passando e ela perdeu o marido. Voltou, agora totalmente de preto, com um lenço impecavelmente amarrado debaixo do queixo. Sentava-se no chão e, junto da minha avó, chorou algumas vezes: primeiro pelo marido e depois pelos filhos ingratos. A minha avó, nascida ainda no século XIX, também enviuvou muito cedo e talvez por isso havia uma enorme empatia entre ambas. Conversavam por vezes horas ... algumas vezes repetindo uma à outra as suas vicissitudes.

A Corália partia altiva como de costume no seu passo certo e ritmado. Por vezes não vendia o cesto novo mas levava sempre no outro cesto alguma coisa: umas batatas, cebolas, laranjas e às vezes um chouriço. A casa era pobre mas havia sempre alguma coisa para dar.

Uma vez desapareceu alguns meses e voltou ainda mais magra: tinha estado doente. Vinha mais velha, cansada e decaída. Repetiu as visitas ainda algumas vezes.

Desapareceu de novo .... ouvimos dizer que tinha falecido.
Passados 20 anos, falecida a minha avó entretanto, deixámos de esperar pela Corália.